II Seminário Paulista de autismo 2010

II Seminário Paulista de autismo 2010

22 outubro 2010

Cirurgião-dentista, o voluntário que é pago com sorrisos

 Homenagem ao dia do cirurgião-dentista

Por Diego Freire
Na Zona Norte de São Paulo, um grupo de cirurgiões-dentistas emprega sua experiência profissional e acadêmica no atendimento odontológico gratuito de crianças e adolescentes de famílias de baixa renda, dando novo sentido à promoção da saúde bucal, celebrada nacionalmente no próximo dia 25 de outubro
Os pacientes do cirurgião-dentista Marcelo Diniz Di Pinho (foto), no bairro do Tucuruvi, Zona Norte de São Paulo, já sabem que não podem marcar consulta para as tardes de quarta-feira: o doutor está fora, a cerca de 5 km dali, na quadra da Escola de Samba Unidos de Vila Maria. Mas o que tira Marcelo da rotina de seu consultório toda semana não são os já iniciados ensaios para o carnaval. Há cerca de dois anos, o cirurgião-dentista paulistano graduado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especializado em CTBMF pela Universidade Paulista (Unip) presta atendimento odontológico voluntário a crianças de famílias de baixa renda atendidas pelo Projeto Social Vila Maria – Um Caso de Amor, que a escola de samba mantém há oito anos e que beneficia a comunidade local com ações gratuitas em saúde, educação, cultura, esporte e lazer.
O trabalho social multidisciplinar da Unidos de Vila Maria tem como um de seus carros-chefe a atenção odontológica oferecida pela Clínica Multidisciplinar Beneficente Dr. Flávio Antônio Luce, do Instituto Pedro Martinelli Pró-Odontologia e que conta com o apoio da Associação Brasileira de Odontologia (ABO), Edita Comunicação Integrada, Dabi Atlante, Colgate-Palmolive, Easy Software e Haydée Móveis Odontológicos. Os atendimentos são realizados por um grupo de nove cirurgiões-dentistas voluntários, sob a coordenação do próprio Marcelo Pinho. Juntos, eles são responsáveis pela saúde bucal de cerca de mil crianças e adolescentes que, se não contassem com os cuidados promovidos pelos voluntários, dificilmente teriam acesso a serviços odontológicos. “Apesar de todos os avanços conquistados pela Odontologia, infelizmente ainda estamos longe do ideal de acesso amplo à saúde pública, e essas famílias não podem recorrer com facilidade à alternativa da rede privada de saúde. Por isso, se essas pessoas não têm força para buscar esse cuidado, levamos o cuidado até elas”, conta Marcelo.
Literalmente. Parte do trabalho de Marcelo é realizar triagens de problemas bucais entre crianças e adolescentes atendidas por outros trabalhos sociais da escola de samba, além dos muros da quadra. No último dia 13 de outubro, o cirurgião-dentista passou a tarde examinando 35 crianças que participam de atividades esportivas no Clube Escola Lauro Megale, no Parque Novo Mundo, também coordenado pelo projeto social da Unidos de Vila Maria. Do grupo, 30 precisam de cuidados odontológicos, sendo que oito deles já foram encaminhados para tratamentos com prioridade por apresentarem problemas mais severos.
Rede de colaboração
O trabalho é grande: segundo dados da prefeitura de São Paulo, a Vila Maria possui mais de 105 mil habitantes, sendo que migram, anualmente, cerca de 1.344 pessoas para a região. Para atender a toda essa gente, o bairro conta com dois hospitais e seis postos de saúde. “A ideia  não é substituir o poder público na garantia constitucional da saúde, mas ser um reforço nisso, que é tão urgente a todos mas, infelizmente, acessível a poucos. Menos ainda com a qualidade oferecida pela clínica da Unidos de Vila Maria. Não é porque o trabalho é voluntário que deve ser precário. Não quero oferecer aos nossos pacientes daqui menos do que ofereço em meu consultório particular”, diz Marcelo. A clínica tem equipamentos modernos e todo o instrumental necessário para o atendimento qualificado realizado pelos seus voluntários.
Mas é o recurso humano que faz toda a diferença no atendimento odontológico do projeto social. Onde mais o Juca, que até os 14 anos de idade nunca tinha ido a um consultório odontológico, conseguiria fazer a higiene bucal sem precisar de anestesia geral? Ele é autista, e família dele encontrou em uma voluntária do projeto social sua primeira dentista: Adriana Gledys Zink(foto abaixo), especializada em pacientes especiais. Hoje com 16 anos – e muitas consultas depois, algumas delas sem atendimento algum, só com breves contatos visuais e tentativas de aproximação através de música e brinquedos –, Juca e Adriana têm estabelecida entre eles algo precioso: confiança. “Só assim consigo entrar no mundo do paciente autista, e é com isso que posso levar adiante os cuidados de que ele, mais do que ninguém, precisa”, explica.
Motivações
Segundo a cirurgiã-dentista, o que a motiva a trabalhar voluntariamente é o mesmo interesse que a levou a especializar-se em pacientes especiais, em 2003. “Além das dificuldades a que todas as pessoas estão sujeitas quando precisam de atendimentos em saúde e não podem pagar por eles, o paciente especial esbarra em mais barreiras: psíquicas, de acessibilidade... No caso dos autistas, mesmo quem pode pagar não encontra cirurgiões-dentistas dispostos a atendê-los”, relata.
O desafio foi superado com muita dedicação aos estudos e, especialmente, às pessoas. Para abrir caminho em uma área ainda pouco explorada como é o atendimento odontológico a pacientes autistas, Adriana frequentava reuniões de famílias e adaptou alguns métodos de aprendizagem à realidade odontológica. Entre eles o Son-Rise, criado nos Estados Unidos nos anos 70 pelos pais de um autista cuja história foi contada pelo filme “Meu filho, meu mundo”, que incentiva a observação das preferências dos pacientes para usá-las como recursos de aprendizagem.
Adriana foi além e inovou: apossou-se do Sistema de Comunicação por Troca de Figuras (Pecs, na sigla em inglês), método através do qual a criança aprende a comunicar suas necessidades e a entender processos pelo uso de figuras, e criou sistemas derivados específicos para a Odontologia. Para fazer funcionar, vale até atender no chão. “O cirurgião-dentista precisa disso, precisa se aproximar cada vez mais do seu paciente, participar de seu mundo. O paciente autista nos dá uma lição porque nos obriga a medidas que, em situações convencionais,  não consideraríamos. Para ultrapassar as barreiras que o autismo impõe é preciso superar nossas próprias barreiras. É edificante”, alegra-se.
Mas a disposição de Adriana em ajudar quem precisa é anterior ao seu trabalho com pacientes especiais. A cirurgiã-dentista é casada com Marcelo Pinho e divide com o marido a dedicação ao trabalho voluntário desde a faculdade, quando os dois se conheceram. O casal mora na Parada Inglesa, também na Zona Norte de São Paulo, e começaram a realizar atendimentos gratuitos há mais de duas décadas, num consultório odontológico mantido por uma igreja no Jardim São Paulo. “Minha formação em Odontologia foi paga com dinheiro público, e é justo que esse investimento retorne à sociedade de alguma forma. Não se trata de obrigação ou mesmo retribuição. É apenas um jeito de eu me sentir útil socialmente, parte de uma rede de colaboração que é boa para todos. Voluntário não trabalha ‘de graça’, como se diz. Nosso ganho não é monetário, mas certamente temos uma contrapartida quando nos dispomos a ajudar alguém. É gratificante”, explica Marcelo. Quando o voluntário em questão trabalha pela saúde bucal de alguém, a contrapartida vem em forma de sorrisos.