II Seminário Paulista de autismo 2010

II Seminário Paulista de autismo 2010

21 março 2011

Minha entrevista ao Blog Sofá do dentista


No Sofá do Dentista dessa semana, entrevistamos a colega Dra. Adriana Zink. Ela nos contará um pouquinho do que é trazer de volta o sorriso de um paciente especial.
Adriana é um ser iluminado e como é chamada pelos colegas: “Encantadora dos Autistas”. Vamos saber porque?
Nome Completo?
Adriana Gledys Zink

Especialidade?
Pacientes com necessidades especiais-2003-2005

Onde se formou?
Universidade de Mogi das Cruzes- 1990-1994

Por que escolheu ser dentista?
Trabalhei como auxiliar de um dentista (Dr.Warner Ortiz) dos 15 aos 18 anos e adorei o dia-a-dia da profissão.

Qual foi a situação mais difícil que enfrentou na profissão?
No início, a situação mais difícil era manter financeiramente o curso, materiais e livros. Na época dava aulas de ciências para escolas estaduais de SP no período noturno e também vendia materiais para uma dental na faculdade. Tinha que estudar muito, meu salário não daria para pagar uma dependência, rsrsrs.

Como surgiu a ideia de trabalhar com crianças autistas?
Resolvi fazer a especialização em 2003 com Dra.Maria Cristina Duarte Ferreira na APCD e aos poucos esse público foi aparecendo em meu consultório, percebi que faltava muito conhecimento para atendê-los, então comecei a estudar sobre autismo especificadamente e como facilitar o atendimento desses pacientes.

O que difere o tratamento?
O tratamento odontológico é o mesmo, o que difere são as técnicas de abordagem e condicionamento. Desenvolvi e adaptei várias.

Como são suas participações em palestras?
Ministro palestras para pais e profissionais, com intuito de facilitar e desmistificar  o tratamento odontológico.

Existem muitos profissionais envolvidos com esse tipo de tratamento no Brasil?
Diretamente com autismo, não. Nós somos especialistas em pacientes com necessidades especiais em geral. Muitos pacientes ainda são encaminhados à anestesia geral.

Existem dificuldades maiores no consultório?
No consultório odontológico estamos cercados de estímulos (sons, cheiros, texturas, imagens etc.) e o paciente com autismo tende a não filtrar bem esses estímulos. Sendo assim, o profissional deve estar atento a essa situação que é primordial para o primeiro contato paciente-dentista. Quanto mais conseguirmos simplificar o ambiente sensorial de uma criança, mais fácil será para ela focar em interações sociais e no aprendizado de novas habilidades. A apresentação do ambiente pode ser inicialmente por figuras fixadas em uma pasta (chamada pasta de condicionamento lúdico), conforme faço, depois cada figura será mostrada no quadro de comunicação na forma do modelo PECS (Picture Exchange Communication System), adaptada à odontologia (desenvolvido por mim)., que é o tema do meu mestrado na Unicsul, onde sou bolsista do Capes e orientada pela Profª.Drª.Renata Guaré.

Como lidar com essas dificuldades?
Temos que ter boa vontade, amor, paciência, conhecimento em autismo e principalmente ética. Considerar os pais os aliados mais importantes e duradouros da criança, fornece um foco consistente para treinamento, educação e inspiração. Juntar-se a uma criança em seus comportamentos repetitivos e ritualísticos fornece a chave para se decifrar o mistério destes comportamentos, e facilita o contato de olho no olho, o desenvolvimento social e a inclusão dos outros na brincadeira da criança. Nesse momento precisamos contar com a formação do profissional especializado em TGD (transtorno global do desenvolvimento), onde serão usados acessórios de cabeça para tentar estipular o primeiro contato visual paciente-profissional.
A utilização da motivação da própria criança impulsiona aprendizado e constrói a fundação para a educação e a aquisição de habilidades, assim a visita ao dentista é considerada uma nova habilidade. Uso de energia, empolgação e entusiasmo envolve e motiva a criança, inspirando um desejo contínuo por interação e aprendizagem. Dessa maneira iniciamos uma abordagem satisfatória para o tratamento odontológico e tendo em vista a complexidade do atendimento é indicado aos pais que procurem profissionais especializados.
Qual um momento especial que você guarda com todo carinho na sua carreira?
Tenho muitos momentos especiais, afinal estou cercada de pacientes especiais. Meus colegas me chamam de “encantadora de autistas”, mas na verdade os pacientes é que me encantam. Tenho diversas histórias para contar, muitas para morrer de rir e tantas outras de chorar e rever conceitos. Agradeço a cada dia por minha saúde e de meus filhos. Aprendo a viver cada dia. As mães me ensinam demais e um caso interessante foi de um menino de 11 anos que não entrava no consultório de forma alguma, gritava, pulava, batia e mordia a própria mão, então, com orientação da mãe fiquei sabendo que ele adorava trens, peguei um trem de plástico e amarrei uma cordinha, passei por ele puxando o brinquedo, ele me seguiu e entrou espontaneamente no consultório, pronto, tudo resolvido!
Outro caso interessante foi de um rapaz de 26 anos, autista de baixo funcionamento que era atendido segurando uma tampa de lata de lixo de 60 litros, e só conseguia realizar os procedimentos acomodando a tampa entre a cadeira, o refletor, alta-rotação,etc