II Seminário Paulista de autismo 2010

II Seminário Paulista de autismo 2010

25 maio 2011

Novo método de atendimento do paciente autista



O presente trabalho mostra o atendimento do paciente autista
de maneira mais lúdica, é uma adaptação feita pela
autora do programa Son Rise® ao atendimento tornando
esse momento mais prazeroso e inovador. É usada uma abordagem
relacional, onde a relação entre as pessoas é valorizada. As
sessões de atendimento são preparadas para facilitar a interação
profissional-paciente e subsequente aprendizagem, que no caso é
a realização do tratamento odontológico. Dessa maneira minimiza-
-se o estresse durante as sessões convencionais de odontologia
para esse paciente, diminuindo também o número de intervenções
com anestesia geral.

INTRODUÇÃO

A odontologia para pacientes com necessidades especiais tem
um grande desafio no que diz respeito ao atendimento ambulatorial
do paciente autista em razão da dificuldade de relacionamento
social que este apresenta. Psicólogos e especialistas em desenvolvimento
infantil têm apontado há décadas que crianças que
possuem desenvolvimento típico aprendem melhor através de
experiências interativas e emocionalmente prazerosas com outras
pessoas. Nestas interações, a criança é um participante ativo ao
invés de um recipiente passivo de informação. Nos últimos dez
anos, os pesquisadores têm percebido que o mesmo vale para
crianças com autismo e dificuldades similares. As novas perspectivas
e pesquisas em relação ao autismo estão começando a
perceber o que o Programa Son Rise® já vem praticando há anos.
Este programa tem sido utilizado internacionalmente por mais de
30 anos com crianças e adultos representantes de todo o Espectro
do Autismo e dos Transtornos Globais do Desenvolvimento.
O Programa Son Rise® é centrado na pessoa com autismo. Isto
significa que o tratamento parte do desenvolvimento inicial de
uma profunda compreensão e genuína apreciação da pessoa, de
como ela se comporta, interage e se comunica, assim como de
seus interesses (4). O Programa Son Rise® descreve isto como “ir
até o mundo da pessoa com autismo”, e é isso que fazemos para
alcançar com êxito o tratamento odontológico.
O autismo infantil é um transtorno global do desenvolvimento
caracterizado por um desenvolvimento anormal ou alterado,
manifestado antes dos três anos de idade, e apresentando uma
perturbação característica do funcionamento em cada um dos
três domínios seguintes: interações sociais, comunicação, comportamento
focalizado e repetitivo. Além disso, o transtorno se
acompanha comumente de numerosas outras manifestações, por
exemplo: fobias, perturbações de sono ou da alimentação, hetero
ou autoagressividade, hand flapping (agitar as mãos), rodopiar
etc. (6).
O objetivo desse trabalho é apresentar a técnica usada pela
autora para facilitar o tratamento odontológico, minimizando o
estresse e os custos com o procedimento, favorecendo a inclusão
social e treinamento para que mais profissionais usem a técnica,
tornando-se aptos a realizar o atendimento em nível ambulatorial.


RELATO DE CASO

Paciente do gênero masculino, 14 anos, autista, apresentou-se
na clínica de odontologia do Projeto Social “Vila Maria – Um Caso de
Amor”, da Escola de Samba Unidos de Vila Maria, acompanhado da
mãe à procura de tratamento. Após realização de uma anamnese
criteriosa foi constatado ser um autista de baixo funcionamento,
sem verbalização, riso inapropriado, pouco contato visual, resistência
à mudança de rotinas, sem acompanhamento psicológico,
terapêutico ou escolar, que nunca havia ido ao dentista e apresentava
dificuldade de aceitar a higienização bucal feita pela mãe. Foi
relatada sua preferência por carros de brinquedo, e o que realmente
mais apreciava era comer. Não gostava de ser contrariado e se
sentir preso, nessa situação poderia desencadear uma crise. Essa
anamnese foi realizada só com a mãe sem a presença do paciente
porque o tempo da entrevista poderia deixá-lo nervoso. Após a
entrevista iniciou-se o planejamento das sessões de condicionamento
lúdico para o tratamento odontológico. Nosso vínculo seria
conseguido através dos carrinhos e esse era o primeiro caminho.
Na 1ª sessão de condicionamento lúdico iniciei com abordagem
adaptando o método Son Rise® à odontologia, fui ao encontro do
paciente, que estava sentado na sala de espera realizando movimentos
estereotipados com o tronco para frente e para trás, sem
notar minha presença. Abortei o uso do jaleco branco e nas mãos
levava um carrinho de plástico. Não falei nada, apenas passava na
frente dele com o carro entre os dedos. Sentei ao seu lado e aos
poucos fui empurrando o carrinho sobre sua perna, imediatamente
ele pegou. Comemorei com aplausos e disse: “muito bem!”, como
indica o Programa Son Rise®. Dessa forma estava sendo motivado
a interagir e a intenção era “entrar no mundo da pessoa com
autismo”. Aos poucos foi aceitando que manipulasse o carrinho
sobre suas pernas. Mas precisava mais, teria que entrar ao consultório
e era um ambiente novo, desconhecido, cheio de estímulos
visuais que podem sobrecarregá-los e serem competitivos ao condicionamento,
além de odores que poderiam desencadear crises
nesse paciente. Devemos simplificar o ambiente de trabalho (4).
Na cabeça, fiz a opção de usar uma tiara com 2 borboletas presas
por longas molas que se mexiam num simples toque, o retorno
com essa ação era buscar o contato visual, uma das mais difíceis
maneiras de relacionamento do paciente autista. Associei o uso
da tiara à música “Borboletinha” das cantigas infantis, em tom
baixo e buscando o contato visual. Aos poucos estendi as mãos
ao paciente e o conduzi ao consultório. Mais uma vez deu tudo
certo e ele me seguiu. Comemoramos novamente: “Muito bem!
Formidável!”, e mais aplausos. O Programa Son Rise® é lúdico.
A ênfase está na diversão. As atividades são adaptadas para serem
motivadoras e apropriadas ao paciente mesmo que ele seja
um adulto. Uma vez que a pessoa com autismo esteja motivada
para interagir com o profissional, este poderá criar situações de
aprendizagem – e no nosso caso é conhecer, entender e aceitar
o tratamento odontológico. O paciente tem que ter segurança no
profissional, confiar em suas palavras e gestos, e o profissional não
deve nunca quebrar esse vínculo, respeito e confiança. Entramos
no consultório e sentamos sobre um tapete de EVA colocado no
chão, onde alguns carrinhos nos esperavam para prosseguir o condicionamento.
Falo em prosseguir porque o mesmo já foi iniciado
no 1º contato, ainda na recepção, onde detalhes não podem ser
esquecidos, já que para esses pacientes não são detalhes. Na
altura de nossos olhos estava fixo na parede um espelho de 0,50 x
1,00 m, para tentarmos de várias maneiras o contato visual. Alguns
pacientes autistas buscam o contato visual através da imagem
refletida no espelho e devemos ficar atentos a isso e comemorar
imediatamente quando esse contato for alcançado, motivando para
que ele seja repetido. Sempre que comemoramos a habilidade
adquirida estamos fortalecendo para que ela se repita. Quando
um comportamento é fortalecido é mais provável que aconteça
no futuro (7) . Podemos comemorar com aplausos, bolinhas de
sabão e várias tentativas até encontrar o que realmente motiva
essa pessoa. Buscamos o contato visual porque será o melhor
caminho de comunicação para o paciente perceber que você existe
e aceitar você para seu mundo. Não podemos ter medo de ousar,
confiar sempre, estudar a técnica e aplicá-la com amor. Nessa
sessão, conseguimos o contato visual por três vezes, além disso
o paciente entrou espontaneamente ao consultório, observou
tudo, sentiu alguns objetos com as mãos e aceitou o contato das
minhas mãos – que, nesse momento, já estavam com as luvas.
Na 2ª sessão de condicionamento lúdico, o paciente chegou e
imediatamente entrou ao consultório procurando o carrinho usado
na sessão anterior. Meu planejamento era que ele sentasse na
cadeira odontológica, então prendi o carrinho no refletor com fita
crepe e deixei a luz acesa para chamar a sua atenção. Ótimo,
ele encontrou o carrinho e sentou na cadeira. Bati palmas, comemorei
e, é claro, dei o carrinho em suas mãos. Nesse momento
consegui mais um contato visual e percebi que nosso vínculo
estava ficando mais forte. Aproveitei o momento para apresentar
a seringa tríplice lançando um pouco de ar no carrinho e depois na
perna do paciente, subindo a caminho da boca. Nesse momento
gosto de fazer uso das músicas infantis, brincando, cantando e
apresentando os instrumentos do consultório. É importante observar
cada reação de nosso paciente, apresentar verbalmente
cada ação para não ser uma surpresa e fazer de maneira calma
sem assustar nem causar estresse. Podemos usar figuras para
apresentação dos instrumentos do consultório e depois mostrar
o objeto propriamente dito. Parece que dessa forma eles reagem
melhor a novidades, essas figuras devem ser simples e exemplificar
realmente o objeto de maneira clara – como a fotografia de mãos
com luvas, mostrando as mãos com as luvas para que ele possa
sentir sua textura. Se a opção for atender pacientes autistas não
pense que tudo isso “são detalhes”. Ótimo, aceitou a tríplice, as
luvas e a manipulação da face, com auxílio de fantoches de dedo
e todo apoio lúdico conseguimos acesso à cavidade bucal, e a
higiene oral com escova e pasta foi realizada. Nunca se esquecer
de recompensar: muito bom! Bolinhas de sabão. Isso é o que
afirma o Programa Son Rise®. Para essa sessão já estava ótimo.
Na 3ª sessão ele entrou muito tranquilamente e sentou na
cadeira, arrancou o carrinho do refletor e começou a gritar alguma
coisa que não entendi. De repente o compressor ligou e foi um
desastre, uma gritaria só. Ele batia a mão na cabeça e movimentava
o tronco para frente e para trás. Pedi que desligassem o compressor
mas já era tarde, encerramos a sessão.
A 4ª sessão foi marcada com intervalo de uma semana para
diminuir o estresse anterior. Estava muito ansiosa ao recebê-lo,
mas foi tudo bem: ele entrou, sentou e arrancou o carrinho do refletor.
Desta vez o compressor já estava desligado! Iniciamos com
profilaxia com uso da baixa-rotação, 1º no carrinho, depois na mão,
no rosto e finalmente na boca. Foi ótimo, consegui a profilaxia de
todo arco superior e deu para terminar o exame clínico. Conforme
fazia a profilaxia, ia mexendo a cabeça para que as borboletinhas
balançassem e foi ótimo, consegui por várias vezes o contato visual
e percebi que já tínhamos um vínculo. Sessão terminada para não
estressar o paciente. Nesse momento sempre pego o brinquedo e
guardo afirmando que irá encontrá-lo na próxima sessão e sempre
dá certo no retorno.
A 5ª sessão foi a mais tranquila de todas: o paciente entrou,
sentou, arrancou o carrinho do refletor e ficou com a boca aberta.
ÓTIMO! Terminei a profilaxia e marcamos retorno bimestral para
controle e prevenção, porque o paciente não apresentava cáries.

CONCLUSÃO

Para conseguir o tratamento odontológico do paciente autista
em ambulatório sem uso das faixas de contenção, é preciso dedicação
do profissional, estudo da técnica proposta com uso de
métodos como Son Rise, compreensão das necessidades e limitações
dos indivíduos, acreditar que é possível, paciência, tentar
várias vezes cada procedimento e ter muito amor no que se faz.

Referências bibliográficas

1. Baron-Cohen et AL. Psychological markers in the detection of autism
in infancy in a large population. British Journal of Psychiatry, n.168,
p.158-163, 1996.
2. Frith,U. Autism and Asperger Syndrome .Cambridge University Press,
1991.
3. Gauderer, E. Christian. Autismo. São Paulo: Atheneu; 1993.
4. Hogan. Autism Treatment Center of America. Home of the Son-Rise
Program®. Modelo de desenvolvimento do Programa Son-Rise®, tradução:
Barreto,AD e Inspirados pelo autismo, 2007.
5. Katz, CRT, et al. Abordagem psicológica do paciente autista durante
o atendimento odontológico. Odontologia Clín.Cientif. Recife, 8 (2):115-
121, a br/jun.,2009
6. Moore, ST. Síndrome de Asperger e a escola fundamental: soluções
práticas para dificuldades acadêmicas e sociais. São Paulo: Associação
Mais 1,2005.
7. Zink,AG et al. Atendimento odontológico
do paciente autista – Relato de caso. Revista
ABO Nacional – vol.16, nº5, 313-316, out/
Nov.2008.