II Seminário Paulista de autismo 2010

II Seminário Paulista de autismo 2010

30 maio 2012

texto sobre odontologia na 3ª Revista Autismo


“Trate a todos
igualmente, tratando
a cada um de forma
diferente”
Por Adriana Zink
Durante a apresentação de um painel na 28ª reunião da Sociedade Brasileira
de Pesquisa Odontológica (2011), em Águas de Lindóia - SP, com Maria Teresa
Botti Rodrigues dos Santos e Renata Guaré — cirurgiãs-dentistas com doutorado,
especialistas em pacientes com necessidades especiais, em que foram avaliados
24 pacientes com diagnóstico de autismo, mostramos estatisticamente o número de
pacientes no espectro autista que ainda recebem o tratamento odontológico com
anestesia geral e contenção física, e evidenciar a necessidade do condicionamento
lúdico para a abordagem desse público, minimizando as intervenções com anestesia
geral.
Hoje sabemos que 53,8% dos pacientes autistas ainda recebem o tratamento
odontológico com anestesia geral no Brasil. Esse é um procedimento seguro, mas
deve ser usado apenas como último recurso disponível. 77% dos pacientes autistas
são atendidos com contenção física, seja com a ajuda dos pais, com faixas de
contenção ou com uso de estabilizadores (tipo Godoy).
Outro lado importante do painel foi mostrar ao cirurgião-dentista que existem muitos
pacientes no espectro autista (embora sem estatísticas oficiais no Brasil), e que os
pais estão atentos aos estudos e métodos de atendimento, devendo esse profissional
se atualizar e oferecer um tratamento mais humanizado para tal público.
O condicionamento lúdico para o tratamento odontológico é muito gratificante para
o profissional, para os familiares e para os pacientes que o recebem. É um método
que motiva o profissional a conquistar a confiança do paciente e de seus familiares
em seu trabalho. Por outro lado, tanto a família quanto o paciente, aprendem muito
nessa intervenção e esse aprendizado vai além de uma restauração bem sucedida
ou um tratamento endodôntico (canal) tecnicamente fantástico. Cada dia é uma
conquista e juntos receberão os prêmios pelos referidos méritos. Vale a pena tentar
sempre! Falo “tentar” porque não podemos prometer nada aos pais, apenas que
sabemos a técnica, temos boa vontade, somos éticos e queremos fazer o melhor.
Honrar um compromisso ou uma promessa é um depósito enorme. Romper com o
prometido é uma retirada imensa, por isso não devemos prometer o que não sabemos
se iremos cumprir. Isso criaria uma expectativa enorme nos pais. Para evitarmos
esses problemas de relacionamento entre pais e profissionais devemos conversar
anteriormente e deixar claras quais são as expectativas em relação ao tratamento. Por
isso se faz necessária uma entrevista inicial sem a presença do paciente, porque essa
entrevista pode levar um tempo acentuado e nosso paciente não teria paciência de
esperar. Nela, tudo será discutido, questionado e esclarecido.
Temos muitas publicações na área da psicologia, que mostram alterações
comportamentais após o uso da anestesia geral e, se estamos falando de
pacientes que já apresentam alterações comportamentais, devemos estar atentos à
intensificação dessa alteração. Uma publicação da médica americana Dra. Lena S.
Sun também relata essa alteração comportamental pós anestesia geral. Todo paciente
que necessita de um procedimento com anestesia geral deve realizá-lo, mas se esse
procedimento pode ser realizado em ambiente ambulatorial essa é e será sempre a
melhor opção. Muitos pais não presenciam a indução da anestesia geral em ambiente
hospitalar, esse momento é estressante, quando o paciente não está sedado com um
pré-anestésico., fica muito agitado, e em muitos casos é usada a contenção física.
Tive uma experiência com um paciente que literalmente lutou com os enfermeiros
porque ele não queria ficar vestido com aquela camisola típica dos hospitais, logo
o estresse maior foi para colocar a roupa e não para fazer o procedimento. Noutro
caso, enquanto esperava que os profissionais induzissem o paciente a anestesia
geral, fiquei apenas observando a forma que abordaram e manejaram aquele paciente
autista, bom, foi preciso usar a contenção física, muitos profissionais segurando,
gritos, e demais comportamentos. Foi traumatizante. Toda essa situação não é
presenciada pelos pais. Com várias experiências como essas, preferi condicionar e
deixar irem para a anestesia geral apenas aqueles que realmente precisam, mesmo
que o retorno financeiro seja menor comparado ao procedimento realizado em
ambiente hospitalar. Todos sabemos que os custos de intervenções hospitalares são
sempre elevados em relação a procedimentos feitos em ambulatório. É claro que, em
muitos casos e a pedido exclusivamente dos pais, o procedimento seja realizado com
anestesia geral alegando resolver “o problema” de uma só vez. Nesse caso passo
todas as orientações aos pais e eles optam pela forma de tratamento que querem para
seus filhos, assumindo as conseqüências de suas escolhas. Muitos alegam não dispor
de tempo para sessões de condicionamento lúdico para o tratamento odontológico.
Inicialmente, alguns pacientes mais comprometidos poderão necessitar do
estabilizador físico, mas, aos poucos esse é eliminado e acaba sendo usado como
condicionador. O uso da anestesia geral é mais tranqüilo para o profissional porque
nesse momento não temos que nos deparar com alterações comportamentais e o
paciente está imóvel, com redução do fluxo salivar, podemos fazer tudo de uma vez,
ninguém reclama, não tem choro, etc. O tratamento dessa maneira pode ser realizado
por qualquer cirurgião-dentista porque a odontologia é a mesma para todos, não
sendo necessário ser especialista em pacientes especiais. Nesse caso, o custo é
maior para os pais, para o convênio ou para o Estado, dependendo de quem estiver
custeando o tratamento.
Com uso de condicionamento em ambulatório (consultório), todo procedimento deve
ser realizado com ética, conhecimento, competência e planejamento. O paciente não
deve sentir dor durante os tratamentos odontológicos, por isso é indicada a anestesia
local em casos que o profissional julgue ser necessário seu uso. Em alguns casos
para conseguir uma anestesia segura precisamos conter o paciente com uso do
estabilizador ou mesmo com ajuda dos pais. Quando o paciente percebe que não
sentiu dor durante o tratamento odontológico ele aprende a confiar no profissional
e melhora o comportamento nas próximas sessões. Nesse momento é muito
importante a confiança dos pais no profissional escolhido. Eles ajudam a tranqüilizar o
paciente durante esse aprendizado. Toda essa experiência servirá para a vida adulta
desse paciente facilitando as visitas ao cirurgião-dentista durante toda a vida. Não
precisamos que o paciente goste do dentista, mas ele tem que saber que é preciso ir
ao consultório e que tem que passar por isso. É a aquisição de mais uma habilidade.
Pais, acreditem que é possível sempre!
Aprendemos muitas situações passando por elas. Sempre faço essa pergunta aos
pais que me procuram para tratar e condicionar seus filhos: ”Você gosta de ir ao
dentista? Então porque seu filho tem que gostar?”.
Alguns também querem de todo jeito que a criança fique sentada na cadeira
odontológica, mas esqueceram quantos meses essa mesma criança levou para
aprender que na escola precisava ficar sentada na carteira. Alguns educadores
relatam que crianças autistas levam em torno de 6 meses para se adaptarem à rotina
da sala de aula, por que a criança teria que se adaptar em um tempo menor à rotina
do consultório odontológico? Pais, “Tenham paciência! Respeitem o tempo de seus
filhos!” Temos que subir um degrau de cada vez. A confiança é a forma mais elevada
da motivação humana.
Hoje sabemos que o treinamento do cirurgião-dentista para o condicionamento lúdico
é possível e está sendo realizado na pós-graduação da UNICSUL em São Paulo.
Muitos colegas já estão conhecendo a técnica e aplicando-a a seus pacientes com
retorno muito positivo. As aulas são práticas e teóricas, com uso de imagens, vídeos
motivacionais, troca de conhecimentos e atualizações no tema.
O profissional não deve rotular pacientes, cada um é único e devemos tentar sempre.
O mundo está conhecendo o autismo e nós cirurgiões-dentistas também. Estamos
engatinhando junto a muitos outros profissionais que não sabiam como fazer, a quem
perguntar, como ajudar, sabíamos apenas ser cirurgiões-dentistas e como já disse
anteriormente, a odontologia é a mesma para todas as pessoas.
No serviço público de todo o país, esse tipo de atendimento poderia ser feito ainda
nas unidades básicas de saúde enviando aos especialistas apenas aqueles casos
mais complicados e isso diminuiria o número de intervenções com anestesia geral
e também o custo com os procedimentos. O profissional necessitaria apenas do
treinamento com a técnica do condicionamento lúdico para o tratamento odontológico.
A prevenção é o melhor caminho! Quando a criança inicia precocemente as visitas ao
cirurgião-dentista ela já está inserida na prevenção de cáries e doença periodontal,
diminuindo o número de procedimentos a serem realizados futuramente. O profissional
também está apto a orientar o cuidador (pais e responsáveis) sobre como realizar a
higiene oral, como facilitar que essa tarefa aconteça da melhor maneira possível e
também está capacitado a identificar as limitações do paciente e adequar o tratamento
e os cuidados à sua rotina. Nós também somos limitados, mas podemos ampliar
as fronteiras de nossas limitações e juntos alcançarmos um bem comum, que é a
qualidade no tratamento odontológico ao paciente autista.
O profissional treinado para atender pacientes autistas faz a mesma odontologia para
todos, o que muda é a abordagem e o conhecimento das alterações comportamentais
que o paciente possa ter durante as sessões. O profissional também precisa saber
como reagir se o paciente apresentar alguma alteração comportamental. Lembre-se:
toda ação tem uma reação.
Não faça para o outro o que não gostaria que fizessem a você ou a seu filho, essa
é uma regra de ouro e quer dizer, na sua essência, que você deve simplesmente
entender a necessidade do outro. “Trate a todos igualmente, tratando a cada um de
forma diferente”.
Um dia uma mãe relatou que seu filho era atendido sem anestesia local porque
a “colega” dentista afirmou que autista não tinha dor. Fiquei perplexa! Até hoje não
entendo como alguém pode ser tão cruel. Como essa criança poderia ficar quieta
numa cadeira odontológica, durante um procedimento de canal e não gritar, chorar,
bater em todos se ela sentia DOR? E depois, como tirar o trauma dessa criança? É
uma criança difícil porque é autista ou porque um “profissional” não soube tratá-la?
Com certeza eu seria bem “difícil” também. Somos livres para escolher as ações,
mas não somos livres para escolher as consequências dessas ações, temos apenas
que assumi-las. No relacionamento paciente-profissional, as pequenas coisas se
equivalem às grandes coisas. Não despreze as pequenas coisas!
A saúde começa pela boca, consulte um cirurgião-dentista. Procure no CRO de sua
cidade quem são os especialistas em pacientes com necessidades especiais aptos a
esse atendimento, você vai encontrar o profissional certo no momento certo.


Adriana Gledys Zink é cirurgiã-dentista, mestranda da UnicSul, especialista em atendimento
a pacientes com necessidades especiais, principalmente com autismo. Foi vencedora do
VI Prêmio Orgulho Autista Brasil 2011 em 2 categorias: blog e foto autista no dentista.
Atende em São Paulo (SP) e seu e-mail é zinkpinho@yahoo.com.br e o site é http://
adrianazink.blogspot.com