II Seminário Paulista de autismo 2010

II Seminário Paulista de autismo 2010

16 julho 2012

Tratamento odontológico para autistas adultos: solução para um dilema familiar (por Diva Cleide Calles)


 Meu filho Douglas Takemura completou 34 anos ontem. Há cerca de dez anos, ou pouco mais, ele tem o diagnóstico de autismo, graças ao neuropsiquiatra Dr. Wanderley Manoel Domingues. Anteriormente, desde poucos meses, era considerado portador de paralisia cerebral. Bebê ainda iniciou terapias específicas, como: Fono, TO, Fisio, Ludoterapia, entre outras. Sempre frequentou escolas especializadas, sendo mesmo até “expulso’ de duas delas, por comportamento inadequado, pois não se sabia do autismo, nem como lidar com os comportamentos tidos simplesmente como “desviantes”, e não oriundos do próprio jeito de ser de um autista.
 O fato é que ao longo de todos esses anos de muitas lutas, incluídas as pela manutenção financeira das terapias, a maioria delas não cobertas pelo convênio do IAMSPE e outros, Douglas vem tendo até hoje progressos em todas as áreas. São progressos no ritmo a ele peculiar, não mensuráveis pelo filtro de uma dita “normalidade”, algo com que uma mãe especial aprende a conviver após alguns anos de batalha, a aceitar e agradecer pelos bons profissionais que cruzam o caminho e fazem todo o percurso valer a pena.
 Desde pequeno eu me preocupava muito com a higiene dos dentes, algo de difícil realização, pois ele trancava o maxilar, mordia meus dedos pelo reflexo, pela hipertonia, enfim, eu costumava subir sobre seu corpinho com todo o cuidado, deixando apenas a cabeça dele livre, para que eu pudesse limpar seus dentes da melhor maneira possível. De quando em quando, ele era examinado pela minha prime dentista. Por meio de brincadeiras, no meu colo, eu o deitava para trás, várias vezes, entre suas risadas, ela tentava examinar os dentinhos, os quais por muitos e muitos anos, permaneceram aparentemente sem cáries, graças também à minha persistência na escovação. Pelo menos a higiene da noite, ou uma delas no dia, feita com mais cuidado, entre uma birra e outra, entre mordidas, muitas vezes. Fiz inúmeras pesquisas sobre locais de atendimento especializados, com anestesia, com sedação. Muitos foram os profissionais consultados, mas, em geral, chegava-se a dois caminhos: sedação ou anestesia, ou permancer  quieto na cadeira do dentista, permitindo o tratamento.
 Por indicação de uma sobrinha formada em Odontologia na USP, cheguei ao CAPE-USP, especializado no atendimento gratuito de pessoas especiais. Por cerca de sete anos, houve um acompanhamento odontológico com a mesma profissional. No entanto, as consultas são marcadas geralmente com um intervalo de um mês, o material utilizado nos tratamentos não é de boa qualidade, o tempo de na sala de espera é uma tortura para um autista e sua mãe. Ao final, a própria dentista chegou a recomendar que eu procurasse outra forma de tratamento, pois Douglas não mais permitia as intervenções, agitando-se demasiadamente e comprometendo a qualidade do tratamento.
 Novamente às voltas com essa demanda tão importante, e muito preocupada com a saúde bucal do meu filho, fiz contato por meio do Facebook com a Drª Adriana Gledys Zink, cujo trabalho eu já conhecia por meio das redes sociais, das listas de discussão sobre o autismo. Profissional a quem eu admirava muitíssimo, mas que eu imaginava cuidar apenas de crianças autistas,  cheguei a duvidar de que ela daria conta de cuidar dos dentes do Douglas, pois, na última tentativa de tratamento, para se desvencilhar, ele havia quase destruído o consultório de outra dentista. Estávamos eu e mais duas pessoas tentando imobilizá-lo e permitir que a profissional fizesse seu trabalho. No final, essa dentista, não especializada, apenas conseguiu cobrir o local com massa, o que resultou numa inflamação na gengiva.
 Após contatos por telefone com a Drª Adriana, marcamos a primeira consulta, em março de 2012. Desde o primeiro momento, houve um entrosamento total entre o Douglas e a Drª Adriana. A cada passo,  uma explicação sobre o procedimento e o instrumento a ser utilizado. Respeito profundo pela pessoa sentada na cadeira a ser submetida a um tratamento que assusta a qualquer um de nós, não apenas a alguém que não sabe verbalizar isso. Não foi necessário realizar contenção em nenhum momento. Muito menos sedação ou anestesia, como eu supunha necessitar. Douglas colaborou o tempo todo, em todas as vezes, sem agitação, sem birras, sem ansiedade! Parecia um sonho!
 Ficamos maravilhados não apenas pelo desempenho profissional, pela habilidade em lidar com o paciente no seu tempo, respeitando suas limitações, e conseguindo, efetivamente, fazer um trabalho caprichado, digno, respeitoso com relação ao autista e à sua família. Além disso, a simplicidade da Drª Adriana, em contraste com sua competência, sua simpatia contagiante, uma pessoa fascinante com quem se tem vontade de ficar horas e horas conversando. Como se não bastasse isso, o esposo, também dentista, Dr. Marcelo, que atende a seus pacientes no mesmo local, é uma criatura admirável.
 Enfim, cuidar dos dentes do Douglas não é mais um problema. Contamos com uma profissional competente e uma pessoa encantadora. Na verdade, é isso: a Drª Adriana parece agir como “encantadora” de autistas. Como algo mágico, eles se sentam na cadeira tão temida, ouvem as explicações, interagem com a profissional e, sobretudo, permitem, sem traumas e sofrimentos, que o tratamento dentário seja efetivado.
 Para o Douglas, ir ao consultório tratar dos dentes tem sido um prazer. Ele sempre quer se vestir muito bem, de preferência colocando algo que o identifique como verdadeiro corintiano que é. Aliás, logo ao início do tratamento, Douglas recebeu um diploma por bom comportamento. Nós o colocamos numa moldura num local em destaque em nossa casa, dada a importância do fato. E, ao término do tratamento, Douglas, ganhou da Drª Adriana Zink, conforme prometido, desde o início, um lindíssimo chaveiro com o símbolo do Corinthians, seu time do coração.
 Como mãe de um autista adulto, e que já passou por muitos e muitos momentos de intensos sofrimento e ansiedade com relação ao cuidado dos dentes do filho, recomendo que façam contato com a Drª Adriana Zink, que marquem uma visita ao seu consultório, e que se surpreendam positivamente com os resultados maravilhosos atingidos, independentemente da idade de seus filhos.
Se anteriormente já admirávamos a Drª Adriana Zink pelos méritos profissionais, atualmente somos seus fãs incondicionais!  
Diva Cleide Calles (São Paulo, SP)
dccalles@gmail.com
Revisora (português), professora (inglês, português, português língua estrangeira)
15.7.2012