II Seminário Paulista de autismo 2010

II Seminário Paulista de autismo 2010

24 agosto 2012

Entrevista concedida para repórteres Jaqueline e Mariana




Introdução:

Ela é dentista de pacientes especiais, paulistana, seu consultório está localizado em Tucuruvi, zona norte de São Paulo.

É carinhosamente chamada de Encantadora de Autistas, escreveu o livro “Autismo e Odontologia – É brincando que se atende”, é colaboradora da "Revista Autismo" com publicações relacionadas à odontologia, é membro do Movimento Orgulho Autista Brasil, é voluntária no projeto social "Vila Maria um caso de amor", é professora da APCD na especialização de pacientes com necessidades especiais, membro da Associação Latinoamericana de odontologia para pacientes especiais, Membro da Câmara técnica de pacientes especiais do CROSP.

Já realizou várias palestras sobre o assunto pelo mundo, ganhadora do VI Prêmio orgulho autista Brasil 2011, o seu blog está entre os mais votados(www.adrianazink.blogspot.com). Ela é a Drª Adriana Gledys Zink.


Perguntas:

   Jaqueline e Mariana: Quem ou o que te inspirou a ser dentista de pacientes especiais
  
  Adriana: A escolha pela especialização em odontologia para pacientes com necessidades especiais foi espontânea e sem nenhuma motivação anterior. Resolvi fazer e adorei.

Jaqueline e Mariana: Você já sofreu algum preconceito de colegas dentistas por você se dedicar a pacientes especiais?
   
    Adriana: Muitas vezes. Alguns colegas pensam que é uma área sem “glamour”, e também com pouco retorno financeiro, mas na verdade é uma área muito gratificante e com o mesmo retorno financeiro das demais áreas da odontologia.

   Jaqueline e Mariana: Sabemos que você é voluntária na Escola de Samba Unidos da Vila Maria, como é o seu trabalho lá?

Adriana: Sou voluntária desde o início do projeto em 2007 e atendo pacientes especiais carentes (adultos e crianças). É bem complicado conseguir esse atendimento público então eles sofrem muito a procura de lugares com atendimento gratuito. Muitos tem dor de dente e ficam agressivos, as famílias não sabem o que fazer e o serviço público não oferece esse atendimento. É muito triste. Embora a fila seja enorme o Marcelo (meu marido também dentista) e eu fazemos a nossa parte.

Jaqueline e Mariana: Como você desenvolveu esse método de condicionamento para tratar pacientes especiais?

Adriana: Tive muita dificuldade no início, não conseguia atende-los sem o uso da contenção física, então comecei a estudar mais, frequentar palestras com grupos de pais, escutar as queixas e finalmente fui adaptando tudo que aprendi ao condicionamento do paciente para o tratamento odontológico. Hoje, atendo a maioria deles sem uso de contenção e com isso pretendo diminuir o número de atendimentos odontológicos com anestesia geral em hospital.

Jaqueline e Mariana: Algum dentista já adotou seu método de condicionamento para atender seus pacientes?

Adriana: Já sim. Na Unicsul os alunos do último ano da graduação já recebem esse treinamento mesmo sem a especialização. Na APCD o treinamento é dado aos especialistas. A UNIP teve uma aula esse ano para os alunos do último ano da graduação. Muitos colegas acessam o blog para obter informações e dicas. Estive no Peru esse ano divulgando meu trabalho. Tudo isso para melhorar a qualidade de vida desses pacientes e conseguir a inclusão no atendimento odontológico a nível ambulatorial.

     Jaqueline e Mariana: Sabemos que você está realizando uma pesquisa com dentes de leite de crianças autistas, qual é a finalidade dessa pesquisa?

Adriana: sou colaboradora aqui no Brasil da pesquisa de Alyssom Muotri da Universidade da Califórnia. A base da pesquisa é retirar as células tronco dos dentes decíduos ( de leite) e encontrar uma alteração cromossômica (genética) comum aos autistas e dessa maneira identificar um fármaco que ajude ou leve “a cura” do autismo. É uma grande esperança para pais do mundo inteiro. O Alyssom é brasileiro e trabalha nos Estados Unidos.

Jaqueline e Mariana: Como é realizada a primeira consulta dos seus pacientes especiais?

Adriana: A 1ª consulta é realizada apenas com os pais sem a criaça para colher todas as informações necessárias na elaboração do plano de atendimento. Essa entrevista dura em média 1h30min por isso a criança não vem junto, ficaria estressada.

Jaqueline e Mariana: Como os pais e familiares de seus pacientes especiais vêm o seu trabalho?

Adriana: No início ficam desconfiados e percebo em muitos casos que estão inseguros mas aos poucos pegam confiança e veem que estou tentando fazer o melhor para aquela situação. É difícil estar no lugar de pai de uma criança especial, passam por situações difíceis, tenho que ter paciência com todos. 

Jaqueline e Mariana: Ficamos sabendo, que uma menininha especial que foi sua paciente (Vitória), infelizmente faleceu. Conte-nos como foi a primeira consulta dela em seu consultório e qual era a síndrome dela?

Adriana: A Vitória era muito linda e bem cuidada, tinha pais especiais. Ela nasceu com acrania (sem o crânio) e anacefalia (sem um pedaço do encéfalo), inicialmente foi desenganada e sugeriram aos pais o aborto ainda na gestação. Eles optaram por ter a Vitória e viveram com ela uns 3 anos. Esse ano ela esteve em Brasília para ir contra a lei que favorecia o aborto de crianças como ela. Veio ao meu consultório em dezembro de 2011, não apresentava problemas odontológicos, recebeu instruções de higiene e cuidados, fez limpeza e foi muito bom, uma motivação conhecer aquela família. Não irei esquecê-la jamais.

Jaqueline e Mariana: Seu livro, “Autismo e Odontologia – É brincando que se atende”, está sendo muito comentado na área odontológica. Como surgiu a ideia de escrevê-lo?

Adriana: Esse é o 1º livro com o tema, a linguagem é simples porque está direcionada a pais, cuidadores e profissionais. Fico muito feliz com os comentários, embora as críticas me ajudem a melhorar. Em breve vou lançar um manual de atendimento específico para dentistas.

Jaqueline e Mariana: Existe algum paciente especial que você não conseguiu atender com o seu método de condicionamento?

Adriana: Existe aquele paciente em que os pais não quiseram tentar e preferiram a anestesia geral e fazer tudo de uma vez. Até hoje todos que passaram pela técnica de condicionamento foram tratados, embora alguns tenha sido necessário o uso da contenção no início do tratamento e aos poucos foi removido e tratado solto. Temos que individualizar o tratamento e é por isso que muitos desmotivam, acham que é muito trabalho.

Jaqueline e Mariana: O que você acha que o Brasil precisa melhorar com relação às pessoas especiais?

Adriana: Primeiramente eu acredito que precisamos aceitar o próximo da forma que ele é e assim seremos aceitos também. Nosso maior erro é querer sempre mudar as pessoas, fazer delas o que achamos que é o certo mas as vezes o nosso certo não é tão certo assim.
O Brasil no geral está caminhando para a inclusão, mas é muito difícil incluir, esse problema está dentro de casa residência, nas escolas, nos municípios, nos estados, no mundo.